NOMES PRA CACHORRO


Dias atrás vi uma camiseta com uma estampa do Snoop Dogg e pensei "maneiro", claro, "daora". Também é claro que a humanidade tem os ídolos que merece. No meu tempo (e sou daqueles velhos desde os 16) se falava em Snoop Dogg, Dr Dre, Eminem e Meio Centavo (em dólares é 50 Cents). No tocante ao país do nunca antes, se não tem deveria ter um Emicê Chulé. Do pé. Emicê Pereba. Coceira. Casquinha de ferida. Porque, bem, àqueles rappers ainda se podia atribuir o mérito dos correntões e conjuntos Extra Extra Large ou das rimazzz estilosazzz cheias de zz como em niggazzz. Já no caso dos emicês nacionais, bem, dá até pra chamar um cão sarnento de Coceira, mas coitado.

A pelagem quase loura do meu mais novo amiguinho é, infelizmente para esta crônica, incompatível com o rastafári defumado do icônico personagem acima referido. No entanto, não pôde deixar de ser uma inspiração. Fugindo, é claro, da vulgaridade dos desenhos que só pegam bem em estampas de calcinhas, minha sugestão número um, notadamente irônica, compôs-se de nomes da Westside ou sei lá qual: Notorius Big, venha cá. Vem comer o seu pratinho. Snoopiee, Snoopy Dogg, yo!

As referências são amplas. Estão condicionadas ao universo imaginativo do ouvinte. Digamos, por exemplo, que um vizinho, desses parentes dos Chulés-Dos-Pés, ou um jovem não-velho como eu, ouvisse esse chamado. Ele certamente não evocaria o pequeno Charlie Brown nem o jargão de um Salsicha em apuros (como hoje ninguém sabe de nada – estou falando do “Scooby-Doo, cadê você, meu filho?”). Outros, como o meu amigo Bruno, ainda seriam capazes de lembrar dos áureos anos, como deveras se depreende do próprio companheiro dele, o qual, inspirado no famoso São Bernardo hollywoodiano e com o devido acréscimo da fonética própria de um colono do norte do Mato Grosso, batizara de Betovo.

A mim particularmente agrada os nomes não fofinhos. E do mesmo jeito que há prenomes de indivíduos, deixemos bem claro, humanos, como Felicidade, Hilário, Escolástica... porque não, por contraste, chamar os bichos de Pavio, Bolacha, Lajota, Laranja? Aliás, quanto ao último, concorre positivamente, no meu caso, se excluída a hipótese da fruta, uma tal pré-disposição genética, visto que meu bom velho, com a cumplicidade de minha falecida mãe, se referia aos seus bichanos como Branca e Cinzinha, numa correspondência atrozmente literal, como se vê.

No mais, depende muito da cara do animal. Isto é, do dono. Se for um como este meu outro amigo, bem, se contentará com o visadíssimo Totó. Àqueles que querem prestar homenagens, minha advertência: escolham nomes mistos. Pelé é bom para gente e para cachorro, com o perdão do Édson. Quanto ao meu mais novo chegado, após um assomo de ira, por ter me confundido com um poste no dia em que o trouxe da feira de filhotes, ficou sendo, por dias, Pinto Sujo. Crueldade, crueldade. E ainda agora estou indeciso, hesitante entre a alta categoria presumida por muitos e a realidade dos acontecimentos atuais. Seja como for, tenho tratado meu cachorro por Marx, que alguns entendem Marquês.

A ambiguidade me contenta. Marx ou Marquês, a escolha é do freguês.

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