PAPÉIS DESAMASSADOS
Os rascunhos, os exercícios e os desabafos, desta vez, não irão para o saco, se este está cheio, tal qual o do leitor está de tanta repetição. É difícil começar, e a coisa mais autêntica a se escrever num primeiro momento é “não sei o que botar aqui”, na expectativa de pegar no tranco. Às vezes funciona: nem dedos nem palavras acompanham as imagens se sucedendo, as lembranças logo ornadas de observações espirituosas, frases sonoras, ditos jocosos, o que já me levou a desejar que alguém inventasse um temerário gravador de pensamentos, antes de falarem em Neuralink e Black Mirror.
A segunda coisa a ser dita, consciente do histórico de decepções, é que não vai dar certo e tudo não passa de mais uma tentativa inútil. Coisa que já foi escrita, oportunamente ou não, já nem lembro onde.
Minha solução habitual – e creio que de muitos – para a muquirana das Musas está no verbo recordar. Começando pela etimologia. Recordar (muquirana outro dia explico) vem do vocábulo latino que significa trazer de novo ao coração. Não é legal? E o mais legal é que com isso ganho algumas linhas e a admiração do leitor não invejoso, isto é, capaz de se entusiasmar com o óbvio e de reconhecer algum mérito, se não for pedir muito, de quem dá a cara à tapa.
Parto, assim, para o meu histórico antes de desistências do que de fracassos – dir-se-ia fracasso se considerado de um ponto de vista estritamente pessoal, o qual me repugna. Mas toda história requer um narrador, que pode ser no mesmo ato o protagonista, e quem sabe seja este um aventureiro ou, se tiver sorte, um mentiroso.
Tudo começa com a “sagaz fuga do homem da selva”, ainda na áulica era dos ditos blogs ou, mais precisamente, dois anos antes do fim do mundo (em romanos MMX). Nunca passou da primeira publicação, que era de um videozinho do Star Wars em que, numa dublagem amadora, Darth Vader procurava por seu headphone. A ideia de desenvolver o assunto do título em pouco tempo me desinteressou. Abandonei o projeto, e meu incipiente desejo de escrever se conformou em rabiscar, mui espaçadamente, no verso de capas e contracapas, em agendas velhas, em papéis mais avulsos que os do Machado.
Meses mais tarde, a inalar o ar fresco de um recomeço, criei outro espaço, que por algumas semanas me pareceu acertado, bacaníssimo. Eu havia conservado as ruínas do meu fracasso (este sim um preciso e reiterado fracasso), do meu fracasso universitário: Resenhas de livros lidos pela metade, fichamentos idem, e o diploma que é bom… De pouco me serviram para dizer a verdade, mas na época me deixaram ocupado. Sacavalva era o nome desse meu mensário particular e tinha um porquê: adveio de um episódio descrito no que deve ter sido o meu primeiro conto. Era péssimo, claro. Só depois de mãos e mãos de tinta ou de grafite ou nem de um nem de outro, obtive um resultado, digamos, passável.
Bem. Ou: em vez de bem eu digo mal – Mal. Porque aqui eu vou de mal a pior e a odisseia está longe de terminar. Não, não, eu vou de bem mesmo porque o meu bem é de bem como. Pois bem: bem como a história do Sacavalva, a saga das páginas pessoais, dos diários virtuais ou seja qual for o nome que se dê em substituição ao inaportuguesável vocábulo blog – a saga não acabou. Parênteses: escrever blog seguido de saga, não fica parecendo que sou um escandivo com português B1? Sei lá!
Enfim. Não parou por aí. Depois vieram ainda outros, que a criatividade só não é maior que a fadiga. Tinha o Vivendo de Tradução, que era para conter uma espécie de portfólio de meus trabalhos. O Jornal de Ontem, com notícias fresquinhas de ontem. O Jornal do Bairro, com as fofocas da icônica dona Maria, moradora da Vila Esperança. O Zona 7, com as badalações de outro bairro, o Universitário, e com críticas academissícimas ao mundo contemporâneo.
Sim, tudo isso. É tanto que nem deve ser verdade. Mas se jamais existiram, um dia quem sabe hão de existir. Escrevendo, de frase em frase, a gente chega lá.
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