ADENIUM OBESUM

Além das variedades gastronômicas e da pequena mostra tecnológica, nada de mais interessante se encontraria no festival daquele ano, senão, no canto mais escondido, aquele velhinho e seu varal de barbantes, que a meu ver formava um legítimo cordel nordestino.

Como no ano passado, ele montou a sua banca perto de um trouxa que vendia brinquedos de madeira. Bem, não era na verdade uma banca, mas apenas um carretel de barbante (talvez nem mesmo um carretel, e sim um fio suficientemente comprido, enrolado e desenrolado a cada exposição), uma caixa para as "revistinhas", e uma cadeira de plástico. A frugalidade era imensa e constituía, por isso mesmo, o melhor atrativo daquele salão. Cheguei, em princípio, curioso dos gibis (pensava que fossem gibis), dado que qualquer coisa impressa me atrai, depois fui ficando, cativado pela simpatia do senhor que me disse: “esses são pra ler com as mãos”.

Geralmente, não se podia tocar nos produtos à venda, dizia ele, mas aqueles folhetos eram sim para abrir, folhear, isto é, para ler com a visão, o tato, a audição. Assim começou o nosso papo, e dentro em pouco eu já não vi o tempo passar. O franzino trovador me informava de suas leituras. Muitos autores eu identifiquei. Cito aqui o Virgílio, porque me fez recordar um diálogo que tive com algum acadêmico de letras numa universidade pública no interior do Brasil: “...o Eneias do Virgílio”. Resposta após ligeira reticência: “aquele barbudo que morreu? da propaganda eleitoral? Era engraçado”.

Pena que o pobre senhor, um tanto fanhoso, carente de cuidados odontológicos, não articulava bem suas palavras e, a despeito de meu esforço, seu monólogo ficou parecendo o de um rádio mal sintonizado. Estou certo de que ainda falou de Bach e de Tomás de Aquino. Era protestante, mas, dizia, bastava um Santo Tomás para o catolicismo merecer a reverência de toda a humanidade.

Bem, foi esse o personagem que revi; e no mesmo isolamento, na mesma melancolia resignada. Dessa vez tinha ao menos a companhia do segurança que guardava a saída de emergência. Eu queria também estar perto dele. Uma rodinha se formou no corredor, defronte à barraca de doces coloniais, e tive de adiar o reencontro. Como a conversa era ruim fui, pé ante pé, me esgueirando pelas cocadas e bolachas de polvilho, rumo à quitanda de sucos, onde disfarcei, para então, de longe, estirar-lhe o braço – como vai o senhor?

Mas falemos um pouco do trouxa dos brinquedos de madeira, o vilão ainda não apresentado – pois era um zé ruela que não parava de buzinar o seu fantástico caminhãozinho de pau, ruído que diminuía ainda mais minha pouca compreensão da singela sabedoria do homem dos cordéis. Foi assim no ano passado. Agora, com o brinquedo vendido, ou avariado (tomara!), o velhinho ainda sem consertar os dentes – o que já supunha – eu podia me sentar e aprender.

Ia me acomodando; ele, falando de sua penúria e impossibilidade de publicar os próprios versos. Em seu colo, uma caixa de sapatos cheia de (cordéis?), as roupas muito batidas. Falava; e sem tempo nem para olhar as capas decoradas de maravilhosas xilogravuras, alguém me puxa: “vamos?”, “um momento, estou conversando com...”. Antes de terminar a frase, voltei-me para o miúdo poeta e vi-o com um sorriso. pronto para se despedir: “Vá! vá! não te preocupes”. Apertei-lhe a mão e fui, guiado por meu autoproclamado benfeitor, que ainda completou: “Tirei você duma enrascada: esse velho é uma matraca!”. Por preguiça e covardia, me resignei, me contentando com a probabilidade de reencontrá-lo no ano seguinte. Hoje, tendo eu também de certa forma me tornado um banguela vendedor de cordéis, recordo-me de todo o acontecido e me pergunto: onde estará aquela flor do deserto?

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