SUPERSTIÇÃO
Às vezes ir de frase em frase é pedir demais e a gente se contenta com uma palavra de cada vez; a primeira que vier:
— Engraxar.
Digo e passo a escrevê-la. Súbito, me interrompo, erguendo a cabeça com espanto:
— Como é?!
E respondo:
— Engraxar, ué, engraxar… Vai, escreve!
E treplico:
— Mas como engraxar?
Assim começo, ou começamos, a altercação. Surjo, em seguida, não sei de onde, agora com ares de sábio, munido de explicações:
— Tens de entender o contexto, ora. Engraxar, em correspondência ao texto anterior, no qual afirmas que é "difícil começar", indica que deves relê-lo, à espera de uma expressão de contentamento, a saber: "ah, isto ficou bom!"
— E quem és tu? — pergunto, ignorante de minhas próprias vozes.
— Ainda não entendi o engraxar…
(Falando ao mesmo tempo e com ar superior) — Presta atenção! Meu velho, a tarefa é árdua e o natural é batucar na escrivaninha com as unhas esgravatadas.
— Feito uma lambisgoia!
— Esgravatadas, lambisgoia… É purinho o Graciliano, copião!
— É que o Angústia marcou o teu subconsciente: “sujeitinha vermelhaça, de olhos azuis e cabelos tão amarelos que pareciam oxigenados”.
— Sub não: consciente, perfeitamente consciente. Graciliano Ramos foi um dos meus modelos. Imitava-o para pegar o estilo.
E o tempo passa. Já estou, conforme previsto, batucando em cima da escrivaninha.
— Não põe música, não põe!
— Você disse… música? – e aqui faço, obviamente, uma cara de corvo do Woody Woodpecker.
No fundo aparece, de óculos escuros e o bigodinho ornando um sorriso gengival, o Stevie Wonder.
— Oi. Quer dizer: hello!
Ele está sentado diante de um piano e começa a gingar como o próprio Stevie Wonder, porque ele é, afinal, o próprio Stevie Wonder.
— Você é muito bom no gingado e toca um piano pra burro!
— Sim, nem parece que é cego!
— Imbecil! Isso não se diz!
— Para de exclamar!
O Stevie continua firme no Superstition, a ignorar minhas grosserias. Penso, enquanto o ouço, numa razão para não descartar estas linhas. O que também continua é a disputa:
— Meu velho, uma palavra, vamos.
— Superstição! — digo rápido — Superstição. Como naquele vídeo da filosofia africana.
— Não vá procurar, não vá procurar, não… ai, caramba!
Abro uma nova guia no navegador. Só a busca leva precisos doze minutos – é um vídeo lá dos primórdios do You Tube. Busco por “filosofia africana” e só aparece gente jurando que a verdadeira filosofia não surgiu na Grécia não. Certo. Vamos então de “doida da filosofia africana”, “filosofia africana repórter rindo”, “superstição filosofia africana”, entre outras tentativas inexitosas até me lembrar da palavra-chave: simpatia. A repórter pergunta para uma mulher na rua: “Você acredita em simpatia?”. A entrevistada entende que simpatia se refere ao ser simpática. Sem disfarçar o assomo de riso, a repórter tenta explicar de que simpatia está falando. A entrevistada, por sua vez, insere no diálogo uma tal física do petrefiolismo e daí pula para um discurso sobre o bem e o mal com base na literatura africana (que muitos dizem ser grega, mas é africana — tal como a filosofia, certamente).
Pois é, foi com isso que eu me distraí e agora está a me censurar até o mais manso que há em mim:
— Olha, parabéns – você merece!
— Cadê texto, cadê? Terminou? Publicou?
— Meia-noite, tens de ir dormir!
— Simpatia, a palavra é simpatia. Nada a ver superstição.
Os dias passam junto com a curiosidade, e quando volto ao presente manuscrito reencontro o velho Stevie, agora com Isn’t she lovely, que não é tão legal quanto a outra.
— Põe Superstition.
— Não.
— Por favor!
— Não.
Na tela, o cursor pisca, pisca, pisca e para. O engraxar continua a não fazer sentido para alguns de nós, mas a proposta, felizmente, não deixou de nos cativar. A barra de rolagem vai e volta, vai e volta…
— Está engraxado. Percebeu?
— Percebi, Nelson, percebi. Só não me abstenho de achar idiota.
— A crônica como ela é…!
— Quem é quem nesse sarapatel?
Graciliano Ramos e Nelson Rodrigues. Stevie Wonder e…
— Michael Jackson. É! Pensa que é mole? Au!
Michael deve estar dançando ao som dessas primeiras batidas do Billie Jean. Para examinar o seu figurino, salto do Word ao Brave. E é aquele mesmo: gravata borboleta vermelha e camisa salmão, calça e jaqueta de couro. A dança é que ficou para depois — de início caminha tristonho, com uma mão a apoiar a jaqueta no ombro, a outra a levar, digamos, um tostão, que às vezes lança para o alto. A cada passo, os inesquecíveis sapatos brancos, com ponta e salto pretos, acendem na calçada uma luz opaca e quadrangular.
— She says I am not the one. But the kid is not my son. Woo!
— É oportuna, neste momento, ainda que lastimável, a presente ignorância de nosso inculto e belo português! — pondero, por fim, com voz bilaquiana.
E até que deu sorte essa experiência com fundo vídeo-musical. Um texto novo, que termino já, por falta do que lhe acrescentar.
— Mas continua!
Não, não diremos mais nada. Vai que dá azar.
— Engraxar.
Digo e passo a escrevê-la. Súbito, me interrompo, erguendo a cabeça com espanto:
— Como é?!
E respondo:
— Engraxar, ué, engraxar… Vai, escreve!
E treplico:
— Mas como engraxar?
Assim começo, ou começamos, a altercação. Surjo, em seguida, não sei de onde, agora com ares de sábio, munido de explicações:
— Tens de entender o contexto, ora. Engraxar, em correspondência ao texto anterior, no qual afirmas que é "difícil começar", indica que deves relê-lo, à espera de uma expressão de contentamento, a saber: "ah, isto ficou bom!"
— E quem és tu? — pergunto, ignorante de minhas próprias vozes.
— Ainda não entendi o engraxar…
(Falando ao mesmo tempo e com ar superior) — Presta atenção! Meu velho, a tarefa é árdua e o natural é batucar na escrivaninha com as unhas esgravatadas.
— Feito uma lambisgoia!
— Esgravatadas, lambisgoia… É purinho o Graciliano, copião!
— É que o Angústia marcou o teu subconsciente: “sujeitinha vermelhaça, de olhos azuis e cabelos tão amarelos que pareciam oxigenados”.
— Sub não: consciente, perfeitamente consciente. Graciliano Ramos foi um dos meus modelos. Imitava-o para pegar o estilo.
E o tempo passa. Já estou, conforme previsto, batucando em cima da escrivaninha.
— Não põe música, não põe!
— Você disse… música? – e aqui faço, obviamente, uma cara de corvo do Woody Woodpecker.
No fundo aparece, de óculos escuros e o bigodinho ornando um sorriso gengival, o Stevie Wonder.
— Oi. Quer dizer: hello!
Ele está sentado diante de um piano e começa a gingar como o próprio Stevie Wonder, porque ele é, afinal, o próprio Stevie Wonder.
— Você é muito bom no gingado e toca um piano pra burro!
— Sim, nem parece que é cego!
— Imbecil! Isso não se diz!
— Para de exclamar!
O Stevie continua firme no Superstition, a ignorar minhas grosserias. Penso, enquanto o ouço, numa razão para não descartar estas linhas. O que também continua é a disputa:
— Meu velho, uma palavra, vamos.
— Superstição! — digo rápido — Superstição. Como naquele vídeo da filosofia africana.
— Não vá procurar, não vá procurar, não… ai, caramba!
Abro uma nova guia no navegador. Só a busca leva precisos doze minutos – é um vídeo lá dos primórdios do You Tube. Busco por “filosofia africana” e só aparece gente jurando que a verdadeira filosofia não surgiu na Grécia não. Certo. Vamos então de “doida da filosofia africana”, “filosofia africana repórter rindo”, “superstição filosofia africana”, entre outras tentativas inexitosas até me lembrar da palavra-chave: simpatia. A repórter pergunta para uma mulher na rua: “Você acredita em simpatia?”. A entrevistada entende que simpatia se refere ao ser simpática. Sem disfarçar o assomo de riso, a repórter tenta explicar de que simpatia está falando. A entrevistada, por sua vez, insere no diálogo uma tal física do petrefiolismo e daí pula para um discurso sobre o bem e o mal com base na literatura africana (que muitos dizem ser grega, mas é africana — tal como a filosofia, certamente).
Pois é, foi com isso que eu me distraí e agora está a me censurar até o mais manso que há em mim:
— Olha, parabéns – você merece!
— Cadê texto, cadê? Terminou? Publicou?
— Meia-noite, tens de ir dormir!
— Simpatia, a palavra é simpatia. Nada a ver superstição.
Os dias passam junto com a curiosidade, e quando volto ao presente manuscrito reencontro o velho Stevie, agora com Isn’t she lovely, que não é tão legal quanto a outra.
— Põe Superstition.
— Não.
— Por favor!
— Não.
Na tela, o cursor pisca, pisca, pisca e para. O engraxar continua a não fazer sentido para alguns de nós, mas a proposta, felizmente, não deixou de nos cativar. A barra de rolagem vai e volta, vai e volta…
— Está engraxado. Percebeu?
— Percebi, Nelson, percebi. Só não me abstenho de achar idiota.
— A crônica como ela é…!
— Quem é quem nesse sarapatel?
Graciliano Ramos e Nelson Rodrigues. Stevie Wonder e…
— Michael Jackson. É! Pensa que é mole? Au!
Michael deve estar dançando ao som dessas primeiras batidas do Billie Jean. Para examinar o seu figurino, salto do Word ao Brave. E é aquele mesmo: gravata borboleta vermelha e camisa salmão, calça e jaqueta de couro. A dança é que ficou para depois — de início caminha tristonho, com uma mão a apoiar a jaqueta no ombro, a outra a levar, digamos, um tostão, que às vezes lança para o alto. A cada passo, os inesquecíveis sapatos brancos, com ponta e salto pretos, acendem na calçada uma luz opaca e quadrangular.
— She says I am not the one. But the kid is not my son. Woo!
— É oportuna, neste momento, ainda que lastimável, a presente ignorância de nosso inculto e belo português! — pondero, por fim, com voz bilaquiana.
E até que deu sorte essa experiência com fundo vídeo-musical. Um texto novo, que termino já, por falta do que lhe acrescentar.
— Mas continua!
Não, não diremos mais nada. Vai que dá azar.
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